Empresas que integram a natureza na política de sustentabilidade

Empresas que integram a natureza na política de sustentabilidade

Data da publicação: 14/03/2015

No evento “Integrar a conservação da natureza nas políticas de sustentabilidade das empresas”, organizado pelo BCSD Portugal e pela LPN – Liga para a Proteção da Natureza, em Castro Verde, ficou claro que as empresas podem assumir o papel de parceiros estratégicos de sensibilização para a biodiversidade e serviços de ecossistemas (B&SE), seja através da comunicação, do mecenato ou da investigação.

Tito Rosa, presidente da direção da LPN, começou por abordar a importância de vários animais minúsculos, indiferentes à maioria das pessoas, entre eles as abelhas. “Se a abelha passasse uma fatura do trabalho que faz, o valor seria bastante elevado. O valor das abelhas e da polinização para a economia não está estimado, mas certo é que 73% das espécies vegetais dependem do trabalho das abelhas. A polinização trás consequências inimagináveis para as empresas”, afirmou Tito Rosa.

EDIA, EDP, grupo Portucel Soporcel, grupo Jerónimo Martins e Somincor, explicaram o que têm feito na área da B&SE. José Pedro Salema, Presidente do Conselho de Administração da EDIA, afirmou que a água ocupa o lugar central da estratégia de sustentabilidade da empresa, já que a qualidade e a quantidade de água dependem da gestão sustentável realizada diariamente. Neste campo, a EDIA está sempre muito atenta ao controlo da poluição proveniente de pontos secundários que, desaguando no Alqueva, acabam por influenciar a qualidade da água. A EDIA faz remoções de lamas, tem um elevador para peixes que facilita as migrações dentro do rio para fins reprodutivos, tem vindo a limitar algumas zonas para conter os gados e conta com barreiras protetoras para evitar a entrada de espécies invasoras como o jacinto aquático nas águas.

Continuar a crescer, manter perfil de baixo risco nos negócios, as alterações climáticas e a eficiência, são os desafios de sustentabilidade da EDP. A empresa marca presença em 1/3 das regiões do mundo onde a natureza é particularmente ameaçada. António Neves de Carvalho, diretor de sustentabilidade e ambiente da EDP descreveu que o intenso envolvimento com stakeholders locais e internacionais faz parte do trabalho de conservação da natureza. O intuito é conseguir antecipar as tendências mundiais e dar resposta atempada. União Europeia, World Resources Institute (WRI), International Union for Conservation of Nature (IUCN), World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) ou MIT Portugal, são alguns dos parceiros regulares da EDP em projetos de conservação da natureza. No caso da Barragem do Baixo Sabor, em Torre de Moncorvo, Bragança, a EDP conta com a assessoria do Centro de Informação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) e com a monitorização da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro (UTAD). Algumas das ações de conservação realizadas são a proteção de uma área de 6.562 hectares contra incêndios, a plantação de 217 hectares de sobreiros/azinheiras e zimbros, a reabilitação e repovoamento de 28 pombais com mais de 1600 pombos, a reativação de mais de 200 hectares de áreas agrícolas abandonadas, fundamentalmente olivais e amendoais, a implementação de mais de 340 pastagens, em parte, com utilização de sementes autóctones que estavam em desuso e a distribuição de 10 cercas elétricas de proteção de rebanho e 60 cães de gado junto dos pastores.

Em 2013, o grupo Jerónimo Martins vendeu mais de 255 mil toneladas de carne, mais de 87 mil toneladas de peixe e mais de um milhão de toneladas de frutas e vegetais. Para garantir a disponibilidade de produtos nas lojas, Fernando Frade, diretor de ambiente da Jerónimo Martins, explicou que o grupo tem vindo a trabalhar a cadeia de valor, e que no espaço de dois anos realizou um estudo de produção agrícola a um conjunto de 10 produtos. Uma das conclusões deste estudo é que as explorações agrícolas têm várias oportunidades de melhoria, sendo que a Jerónimo Martins está já a partilhar boas práticas neste âmbito.

O grupo Portucel Soporcel gere cerca de 120 mil hectares de florestas, distribuídos por 1400 unidades de gestão, em 165 concelhos de Portugal. A estratégia da gestão florestal começa por fazer a avaliação dos impactos e riscos, preservando os valores ambientais e socioeconómicos. Paula Guimarães, responsável da área de certificação florestal da Portucel Soporcel explicou que o grupo começa por conhecer o local ao nível de presença de espécies e habitats, o seu estado de conservação, definindo depois as ações. Com vista a maximizar os benefícios, exemplos de ações implementadas pela Portucel são, a restrição ao uso de químicos, a adequação dos locais de plantações florestais ou a manutenção de zonas agrícolas. A proteção do património histórico-cultural e a gestão de expectativas das comunidades envolventes e partes interessadas, também está nas prioridades do grupo Portucel Soporcel.

A empresa mineira Somincor ocupa uma vasta área da zona de proteção especial (ZEP) de Castro Verde, e é envolvida pelo principal curso de água local, a ribeira de Oeiras. Dos 1.619 hectares da empresa, 840 são de uso industrial e 779 não têm utilização industrial. Desde 1990 que a Somincor tem um programa de biomonitorização ativo que avalia os macroinvertebrados, a ictiofauna e os bivalves na ribeira de Oeiras. A empresa faz o controlo de plantas, de aves e o controlo da qualidade do ar e dos solos. Henrique Gama, diretor de ambiente da Somincor nomeou também os acordos com agricultores locais, que mantêm a atividade agrícola em cerca de 50% dos terrenos da empresa. As propriedades seguem uma política de gestão cinegética, permitindo a atividade de caça turística, sempre que seja adequada, em 60% dos terrenos. A Somincor construiu 6 barragens para represar águas pluviais não contaminadas que são um habitat privilegiado das espécies existentes na região.

Mafalda Evangelista, gestora de projetos do BCSD Portugal abordou depois os cinco passos para integrar a conservação da natureza na estratégia de negócios das empresas: (1) perceber a importância da B&SE na empresa, (2) avaliar os impactos e dependências da empresa face à B&SE, (3) definir uma estratégia, (4) implementar um plano de ação e (5) medir e rever periodicamente o processo. Dar estes passos, ou pelo menos alguns deles, é também uma forma de inovar na medição e valoração do capital natural.

Fotografias do evento | Multimédia

2015-05-22T11:25:05+00:00