Tendências. Uma questão de velocidade

Tendências. Uma questão de velocidade

Data da publicação: Jul 2019

Há uma clara tendência a ganhar espaço nas redes sociais, na publicidade, no marketing, na indústria, na maneira como se gerem empresas, nos modos de vida: viver mais devagar e de forma mais simples. O movimento slow living não é novidade, mas está a crescer e a afetar os negócios como nunca antes, agora intimamente ligado ao ativismo ambiental e ao status.

Slow living significa fazer escolhas conscientes para melhorar o nosso bem-estar e qualidade de vida, e desacelerar para melhor compreender como as nossas escolhas nos afetam a nós próprios, aos que nos rodeiam e ao planeta. Este estilo de vida prefere abordagens mais lentas a todos os aspetos da vida quotidiana, da alimentação ao sexo, passando pelo trabalho, pela educação, pela informação e por todas as formas de consumo.

O conceito surgiu no final dos anos 80 do século passado com o movimento slow food por oposição e reação ao crescimento da fast food, advogando a escolha de processos de produção de alimentos mais lentos e tradicionais e, por isso, mais saudáveis e naturais. Agora, com o crescente acesso a informação e o consequente aumento de consciência do consumidor, afeta todas os setores de mercado.

O objetivo é acabar com a glorificação da pressa e da ocupação, e viver de forma mais conectada com os outros, com os lugares e connosco mesmos, de modo a ter experiências mais ricas e satisfatórias e a sentirmos que a vida e a forma como vivemos têm um propósito – e isto reflete-se na nossa ideia coletiva de sucesso e nos nossos hábitos de consumo.

Carl Honoré é considerado uma referência no estudo do movimento slow e já escreveu e falou extensivamente sobre ele. No livro In Praise of Slowness descreve como o movimento foi adotado em todo o mundo. Da slow food chegámos à slow fashion por oposição e reação aos impactos negativos da fast fashion, nomeadamente com o surgimento do movimento Fashion Revolution em 2013 em resposta ao desastre do Rana Plaza, no Bangladesh. E depois ao slow fitness, ao slow tourism, às slow cities, às slow news e ao slow marketing, áreas onde a chave é o propósito.

No mundo dos negócios e das empresas assistimos a duas principais tendências ligadas ao slow living – um ressurgimento do artesão e do artesanal, e uma crescente preocupação com o o bem-estar e o equilíbrio vida/trabalho. Mas, atenção: o movimento gira em torno da mais cara das commodities – o tempo -, por isso a tendência, no mercado, não é a de eliminar o fast, mas a de integrar o slow. O consumidor continua a querer instantaneidade, a ter tudo à distância de um click, a ter acesso a entregas no próprio dia, mas está disposto a pagar mais por maior qualidade, tanto nos produtos, como nos serviços e, em ambos, isso significa mais tempo nos processos de produção e operacionalização, mas não necessariamente nos processos de venda e entrega.

Slow living como tendência de consumo

Há todo um novo mercado focado em ajudar os consumidores a terem uma vida mais slow, da produção de conteúdos aos serviços de wellness. Aliás, os estudos de tendências para 2019 e 2020, além de todas aquelas relacionadas com a digitalização, a internet das coisas, a robótica, a inteligência artificial e afins, apontam para outros movimentos com ligação direta a estas tecnologias mas motivado pelo crescente interesse num estilo de vida abrandado:

1 – Procura pela personalização: a oferta de produtos e serviços personalizados não é novidade, sendo uma excelente forma de atrair consumidores há décadas, no entanto, há agora uma necessidade de evolução nas táticas de personalização para atingir os consumidores superestimulados. Segundo um estudo da Acquire, 59% dos profissionais de marketing reportam um excelente retorno do investimento aplicado à personalização das suas lojas online, enquanto 53% dos consumidores acreditam que as lojas que personalizam a experiência de compra fornecem um serviço mais valioso, 59% acreditam que é mais fácil encontrar produtos mais interessantes numa loja online personalizada e 56% dizem ser mais provável voltar a um website que recomenda produtos. Segundo um artigo da Forbes esta procura liga-se à ideia de que um produto ou serviço pode ter um benefício direto e tangível para quem o adquire, e o consumidor está disposto a pagar mais por essa experiência. Isto aplica-se não só à oferta mas também ao apoio ao consumidor que, agora, tem expectativas de o receber em tempo real.

2 – Lealdade pelo propósito

Um estudo da Deloitte mostra como a saúde, o bem-estar e a responsabilidade são os novos alicerces sobre os quais os consumidores constroem relações de confiança e fidelidade às marcas. Os laços emocionais com as grandes marcas irão provavelmente enfraquecer devido ao crescente descontentamento do consumidor com os impactos negativos percepcionados, aliado ao aumento do foco na saúde pessoal, no meio ambiente e no impacto social. As empresas terão que alinhar melhor as suas ofertas e atividades com os interesses e valores do consumidor, nomeadamente alterando o portfólio, a estratégia e os parceiros da marca.

3 – Qualidade pela personificação

Com a nova perceção de status que, na era pós produtos genéricos e massificados, se prende com a ideia de individualidade e diferenciação, além da personalização da experiência e da oferta para cada consumidor, há uma expectativa sobre a humanização das marcas e das empresas de modo a provar a sua autenticidade. Marcas que se apercebem das tendências e, por isso, comunicam com manifestos sobre o impacto social e apelam a valores opostos ao materialismo e consumismo caraterístico do ecossistema em que operam, têm que mostrar essa narrativa com pessoa reais. O consumidor acredita que a qualidade de um produto ou serviço está intimamente ligada às pessoas que os representam, nomeadamente fundadores, gestores e embaixadores, mas também consumidores – o próprio consumidor, sobretudo o mais consciente, é altamente influente no seu círculo, e pode ser um dos maiores recursos de marketing para uma marca.

Todas estas tendências trazem oportunidades e desafios. A personalização do produto e da experiência de compra, a afinação do propósito da marca e a inclusão das pessoas na narrativa de marketing serão essenciais para capturar valor, mas as economias de escala serão prejudicadas pela introdução de novos modelos de negócio baseados em customização e comunicação individualizada. Talvez esteja na hora de abrandar o suficiente para criar novas formas de alcançar pessoas que, no fundo, procuram mais tempo.

2019-07-08T21:18:46+00:00
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