A invenção do dia claro

A invenção do dia claro

Data da publicação: 22/01/2019

Por João Wengorovius Meneses

Há uma pergunta que fazemos diariamente no BCSD Portugal: se ainda houver lugar para a utopia no nosso tempo, que papel cabe ao consumo e à produção de bens e serviços?

De uma coisa estamos certos: o futuro não nos acontece, ele é criado por todos nós, na miríade imensa de decisões que tomamos diariamente. É como se cada decisão de cada pessoa, grande ou pequena, fosse uma linha e no cruzamento de todas essas linhas se tecesse um tapete que é o nosso futuro.

Desde que abandonámos o modo de vida nómada recolector-caçador, que uma parte importante da nossa vida passou a estar relacionada com decisões de produção e consumo. Ou seja, como obter rendimento e o que fazer com ele.

A partir do século XX, a panóplia de bens e serviços que atravessa cada minuto das nossas vidas cresceu exponencialmente. Da alimentação ao vestuário, da habitação à mobilidade, da saúde à educação, do trabalho ao entretenimento, sem o vasto menu de bens e serviços que temos ao nosso dispor, paralisávamos. Do nascimento à morte – incluindo esses dois momentos –, a presença de bens e serviços é hoje transversal e permanente.

A antropologia do consumo demonstra bem como os objetos servem, em grande medida, para a criar e manter identidades e relações sociais. O consumo surge como uma ordem cognitiva, quase uma cosmologia, que ordena o universo e dá sentido à vida – sendo a cultura contemporânea exuberante no leque de recursos simbólicos a que nos dá acesso.

Para o sociólogo Zygmunt Bauman, a modernidade liquidificou-se ao abrir-se a “identidades mutáveis”, que podem ser trocadas quando em desuso ou fora de moda. Ter a última moda, assistir ao que todos assistem, considerar belo o que a maioria gosta, são atitudes comuns e que caracterizam a “modernidade líquida”. Há no consumo um misto de voracidade identitária, de aplacar do desejo e de submissão sociocultural – que, para muitos autores, serão as forças motrizes da lógica capitalista.

Com nuances entre si, encontramos este tipo de abordagem em Jean Baudrillard (“A sociedade de consumo”), Roland Barthes (“Mitologias”), Pierre Bourdieu (“Gostos de classe e estilos de vida”), Gilles Lipovetsky (“A era do vazio”), Naomi Klein (“No logo”), Don Slater (“Consumer culture and modernity”), entre outros.

Há também autores mais liberais, que preferem sublinhar a importância do consumo como ato de liberdade e expressão individual. Seja como for, tanto para os mais críticos, como para os mais crentes, é consensual que o consumo é uma das dimensões chave da nossa vida.

Já a produção tem sido estudada sobretudo por economistas. Para Marx, a produção é a chave da existência humana, da sociedade e da história. Não só a história se define pelos modos de produção, sendo a luta de classes a materialização das diferenças relativamente à propriedade desigual dos meios de produção, como a identidade dos indivíduos se cria através do trabalho. Também Freud defendia que o amor e o trabalho são as nossas pedras angulares.

Consumo e produção são, assim, aspetos chave da vida e das sociedades. O impacto que tem a produção de bens e serviços para 7 mil milhões de consumidores do planeta é de tal magnitude que ou esta é sustentável ou nunca teremos um modelo de desenvolvimento sustentável. Por esse motivo, consumo e produção responsáveis são um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Por exemplo, é crítico evitarmos o excesso de produção e consumo, e procurar garantir que o preço dos bens e serviços reflete o seu verdadeiro custo, incluindo os impactos sociais, humanos e ambientais gerados ao longo da cadeia de valor da produção.

Certo é que se em cada decisão de consumo ao longo do dia, pequena ou grande, procurarmos ser o mais sustentáveis possível, o consumo seria um poderoso agente de mudança – e nós mais jardineiros, menos predadores, do mundo à nossa volta. Já do lado da produção, a consumidores conscientes e exigentes, as empresas iriam responder com a ambição de serem as melhores para o mundo e não as melhores do mundo.

A questão que se coloca é, então, a seguinte: do ponto de vista do consumo, como seria um dia perfeito em termos de sustentabilidade? Para além de lixo e carbono zero, que outras dimensões ter em consideração? Ou seja, como seria um cabaz de produtos e serviços sustentável? Que pijama, que almofada, que escova de dentes, que shampoo, que creme hidratante, que fato, que cinto, que relógio, que sapatos, que pequeno-almoço, que meio de transporte, que telemóvel, que compras no supermercado, que óculos de sol, que vinho ao entardecer, que destino de férias pesquisar ao serão e em que motor de pesquisa?

Ser um agente de mudança através do consumo, na pacatez do nosso quotidiano, sem o incómodo do sangue e das revoluções, seria uma odisseia semelhante ao “Ulisses”, de James Joyce. Nele, descreve-se um dia na vida de Leopold Bloom, ao longo de centenas de páginas, sem que nada de especial aconteça. Com a diferença de que no nosso dia perfeito, o nosso personagem teria a possibilidade de fazer uma revolução de veludo, assim tomasse as decisões de consumo acertadas ao longo do dia.

Este ano o BCSD Portugal vai desenvolver uma nova iniciativa, voltada para o consumo. Não basta apoiarmos as nossas empresas na sua jornada para a sustentabilidade. É fundamental ajudar cada pessoa a ser agente de mudança, a inventar o seu dia claro, na relação que estabelece com o mundo, através dos bens e serviços que consome. Sem grandes alterações em rotinas, nem estilos de vida, e sem que nada de especial tenha de acontecer. Algo tão simples como a canção do Lou Reed: “Just a perfect day / You made me forget myself / I thought I was someone else / Someone good”.

2019-01-30T14:22:16+00:00
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