Entrevista BCSD Portugal a António Miguel, Fundador da MAZE

Entrevista BCSD Portugal a António Miguel, Fundador da MAZE

Data da publicação: Dez 2019

A oportunidade da inovação social em Portugal com António Miguel, fundador da MAZE

Que características deve ter uma iniciativa que pretenda gerar valor com impacto social ou ambiental, isto é, para ser veículo de sustentabilidade?

É difícil responder a esta pergunta de forma binária ou assumindo que existe apenas uma resposta certa. A forma como olhamos para este tema na MAZE é através das nossas áreas de trabalho que incluem aceleração, títulos de impacto social e capital de risco. Aquilo que procuramos numa iniciativa que pretenda gerar impacto social e ambiental é que o seu modelo de geração de receitas (monetização) esteja intrinsecamente e diretamente ligado ao impacto que cria. O professor Colin Mayer da Universidade de Oxford coloca esta abordagem de uma forma muito simples: as empresas do futuro são aquelas que lucram ao resolver problemas sociais e ambientais (ao invés de lucrarem com a existência desses problemas). Na MAZE estamos completamente alinhados com esta visão. As outras duas características que procuramos são uma equipa com o nível certo de obsessão sobre o problema que estão a resolver e com as competências para executar a solução e um mercado com dimensão global que permita à iniciativa ter potencial de escala.

A inovação é também um driver de sucesso no contexto das iniciativas de impacto?

É um driver fundamental, apesar de não ser o único. Há duas razões pelas quais a inovação é importante para o sucesso destas iniciativas: em primeiro lugar, porque existem problemas sociais e ambientais crónicos que precisam de respostas inovadoras (por exemplo, o desperdício alimentar ou desperdício na indústria da moda) para os quais as respostas tradicionais não estão a conseguir ser eficazes; em segundo lugar, cada vez mais os problemas sociais e ambientais estão mais complexos e novos problemas surgem exigindo antecipação e inovação na forma como os vamos endereçar (por exemplo, bactérias ultrarresistentes a antibióticos).

Que tipo de tendências e novas soluções estão a surgir no domínio das organizações e ecossistemas focados no impacto ou na sustentabilidade?

As grandes tendências que estão a moldar o ecossistema de impacto são:

  • As preferências dos consumidores, em especial os millennials. Querem consumir produtos que respeitem critérios ambientais e sociais, mesmo que tenham de pagar um pouco mais por esses produtos. Exemplo disso é o cada vez maior escrutínio à utilização de plástico.
  • A mobilização do talento para organizações com uma missão e propósito social e ambiental, que vai além da maximização do lucro. A competitividade pelo melhor talento a nível das grandes empresas e empregadores vai diferenciar-se pela proposta de valor que dão aos colaboradores nesta área.
  • As decisões de investimento dos millennials, que estão a herdar uma enorme transferência de riqueza, incluem em mais de 80% dos casos critérios ambientais, sociais e de governance.

Neste sentido, é uma questão de tempo para que o impacto dite o envolvimento das marcas com os consumidores, a atração de talento e produtividade e, por consequência, represente um menor custo de capital para as empresas que integrem impacto no seu negócio.

A ligação entre o empreendedorismo de impacto e os mecanismos de financiamento ou investimento tradicionais já ocorre com facilidade?

Não diria que ocorre com facilidade mas sim que desde 2013 tem sido feito um enorme trabalho em Portugal para permitir que as iniciativas de impacto tenham acesso aos mesmos mecanismos de financiamento que iniciativas tecnológicas, por exemplo. Este ano, 2019, foi positivo para os empreendedores e empreendedoras de impacto em Portugal acederem a mecanismos como filantropia, instrumentos de crédito, plataformas de garantia de crédito e equity em fase inicial. A Fundação Calouste Gulbenkian tem sido fundamental neste caminho e pioneira a nível Europeu, inovando na forma como financia iniciativas de impacto, utilizando atualmente um conjunto de mecanismos que vão desde donativos, a Títulos de Impacto Social e a investimento em equity. Em complemento, a Iniciativa Portugal Inovação Social desempenha um papel crucial na implementação destes mecanismos de financiamento e na mobilização de investidores privados.

Faz sentido falar, ao mesmo tempo, em “impacto” ou “sustentabilidade” e “unicórnios”? O crescimento associado a um unicórnio é compatível com um projeto focado em gerar valor social e ambiental?

Penso que faz todo o sentido se forem soluções onde exista uma relação virtuosa e inequívoca entre a geração de receitas e a criação de impacto. Nesses modelos, o crescimento das soluções vai sempre representar um aumento na quantidade de impacto que é criado. Os unicórnios atuais são medidos pela avaliação de um milhar de milhão de dólares. Essa métrica sabe a pouco. Espero que num futuro muito próximo sejam medidos pela criação de impacto social e ambiental duradouro junto de um milhar de milhão de pessoas.

Que soluções concretas para a resolução de problemas sociais e ambientais foram, até agora, alavancadas pela MAZE?

Lançámos os primeiros Títulos de Impacto Social em Portugal que são implementados pela Academia de Código, Associação TESE, Projeto Família e Cuidar de Quem Cuida. Cada uma destas organizações tem respetivamente soluções inovadoras para combater o desemprego jovem, melhorar a empregabilidade de jovens em situação vulnerável, evitar a institucionalização de crianças e jovens em risco, melhorar a qualidade de vida de cuidadores informais. O Estado Português tem a oportunidade de observar os resultados destes projetos, medidos de forma rigorosa e analítica, podendo vir a integrar estas soluções inovadoras nas suas respostas, replicando assim o impacto a nível nacional.

O que distingue Portugal de outros países na área do empreendedorismo de impacto?

Portugal é um terreno fértil para iniciativas de impacto e um excelente país para testar novas soluções, levá-las ao mercado, receber feedback e iterar, ver o impacto diretamente no terreno para depois replicar noutras geografias. Poucos países têm a combinação de talento, adoção tecnológica, oportunidade de mercado e concentração que nós temos. A dimensão absoluta dos problemas sociais em Portugal, apesar de ser maior do que todos queremos, é reduzida por comparação com a dimensão que esses mesmos problemas têm noutros países. Logo, em Portugal é possível erradicar por completo alguns desses problemas (p.e. existência de pessoas sem-abrigo; reintegração de jovens em centros educativos). Esta é uma enorme oportunidade para Portugal liderar pelo exemplo e ser a incubadora de soluções eficazes que são depois adotadas por outros países.

2019-12-19T13:10:33+00:00
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