Entrevista de Peter Bakker ao jornal Dinheiro Vivo

Entrevista de Peter Bakker ao jornal Dinheiro Vivo

Data da publicação: Out 2019

Durante o Council Meeting do WBCSD, em Lisboa,  o Presidente Peter Bakker partilhou algumas ideias numa entrevista ao Dinheiro Vivo. Neste artigo intitulado “Se redefinirmos o crescimento, vamos poder continuar a crescer”, Peter Bakker concentra tópicos como o TCFD, o Reporting, os riscos ESG, assim como questões relacionadas com finance e regulação das emissões de carbono.

“Se redefinirmos os crescimento, vamos poder continuar a crescer”

Apresentaram nestes dias uma avaliação do progresso que as empresas estão a fazer na inclusão de riscos climáticos e matérias de sustentabilidade nos seus relatórios anuais. Quais são os resultados?

O que alterou realmente a paisagem em termos de reporte foi a iniciativa Task Force for Climate-related Financial Disclosures [Grupo de trabalho para a divulgação de informações financeiras relacionadas com o clima]. É um grupo de trabalho que iniciou o seu trabalho pouco depois do Acordo de Paris do final de 2015, sob iniciativa de Mark Carney, presidente do Conselho para a Estabilidade Financeira, que junta os banqueiros centrais de todo o mundo, e governador do Banco de Inglaterra. As recomendações foram publicadas no final de 2017. Basicamente, dizem que as empresas devem fazer três coisas. Em primeiro lugar, divulgar os riscos relacionados com o clima na sua atividade, de forma padronizada e comparável, o que significa que têm de ter um sistema de gestão e avaliação de risco que não se limita a olhar para os aspetos financeiros mas também ambientais. Em segundo lugar, cada empresa deve clarificar como, na estrutura dos seus órgãos sociais, serão geridos estes riscos – o que cabe ao conselho de supervisão, ao CEO e aos restantes agentes da empresa. Por fim, cada empresa deve ter um cenário estratégico, ou vários, que computem o impacto de um mundo com mais 2 ºC. Se o mundo enfrenta restrições ao carbono e não vamos poder emitir os mesmos gases com efeito de estufa que emitimos hoje, como é que isso influencia o modelo de negócios. Por exemplo, se a sua empresa tem termoelétricas a carvão, vai enfrentar muitas dificuldades. Portanto, trata-se de saber qual vai ser a estratégia para continuar a ter um negócio. O Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável é o parceiro de implementação. É importante ter o relatório e as recomendações, mas cabe-nos ver se as recomendações podem ser implementadas. Trabalhamos com cinco ou seis empresas do sector petrolífero e do gás, outras cinco ou seis do sector químico, outras tantas na distribuição de eletricidade, e vamos fazer mais disto na indústria automóvel, na agricultura, na floresta. Os resultados dos primeiros três sectores já saíram e mostram que pode ser feito. Por vezes, alguns dos indicadores têm de ser ajustado para que funcione. Na semana anterior, em Tóquio, realizou-se a primeira cimeira global do grupo de trabalho e discutimos como dar uma dimensão mundial a estas recomendações. Mark Carney disse esperar que nos próximos dois a três anos as recomendações se tornem obrigatórias para todas as empresas. Provavelmente, acontecerá primeiro na Europa e, provavelmente, em seguida no Japão. Mas se esses mercados avançarem seguir-se-ão os restantes. Será uma exigência dos mercados de capitais.

Como é que as empresas estão a reagir à ideia de esta divulgação de riscos passar a ser obrigatória?

Nesta semana, em Lisboa, tivemos perto de 600 pessoas na nossa conferência. A impressão que tive da sala é que agora toda a gente compreende a urgência das alterações climáticas – é uma emergência climática. Compreendem que têm de arranjar planos para atingirem a neutralidade carbónica em 2050. Nem todos sabem como o fazer. Para alguns sectores é algo fácil enquanto para outros é incrivelmente difícil. Mas todos percebem que têm de ter planos. Todas as empresas que trabalham connosco concordam que uma divulgação transparente dos riscos é a única maneira de manter a confiança da sociedade.

Aquilo que se revela aos investidores pode ter um impacto bastante grande no financiamento.

Mas, se todos tiverem de divulgar, a desvantagem desaparece. Se apenas algumas empresas fizerem o reporte há o risco de se ser penalizado por ser transparente, mas se todos forem transparentes o risco desaparece. Se todos estiverem obrigados a fazê-lo vão começar a evidenciar-se as empresas que têm os melhores planos para chegar a zero emissões líquidas e serão essas as mais bem-sucedidas. As pessoas sempre perguntaram porque é que a ação climática avança tão lentamente, e estas são algumas das razões. As empresas têm receio de perderem as respetivas posições competitivas. Mas a emergência climática tornou-se tão clara que, a menos que todos mudemos, todos nós fracassaremos. Já não há espaço para falar em manter igualdade na concorrência e em não ser transparente. A menos que haja planos claros para chegar à neutralidade carbónica falharemos todos. Todos vão ter de ser abertos.

Há já bons modelos para fazer estas avaliações de risco?

Publicámos três relatórios de implementação com boas descrições dos riscos para cada tipo de sector. Alguns são físicos, como os relacionados com o tempo, outros têm que ver com a transição dos combustíveis fósseis para as renováveis, e outros são de reputação – as pessoas podem deixar de gostar de si. Estes riscos estão mapeados em cada sector e há indicadores para medir disponíveis. Vamos adicionar os dos sectores automóvel, agrícola e florestal. Vamos construir um compêndio para todos os sectores.

E os riscos regulatórios?

Fazem parte. São múltiplos. O preço do carbono é um deles. As restrições relativas à qualidade do ar podem ser outro. A regulação, neste momento, é um pouco imprevisível – em particular, para as empresas com atividade internacional. A Europa quer e consegue avançar um pouco mais depressa. Já a América não se mexe muito no espaço regulatório, mas o que vemos cada vez mais é que será a procura pelos consumidores a liderar o processo. Por exemplo, os consumidores querem veículos elétricos, de emissões zero. Nem todos podem comprar um Tesla, portanto, querem veículos elétricos a preços comportáveis. Aquilo que vemos é os fabricantes a reagirem à procura. Primeiro, a Tesla, e mais recentemente a Volkswagen, a SEAT, a Mini, a Renault. O que as empresas estão a perceber é que não basta ter um carro elétrico – é preciso garantir que toda a cadeia de valor tem emissões líquidas zero. A Daimler disse que em 2039 vai atingir a neutralidade carbónica nos carros, nas fábricas onde os constrói e nos fornecedores. E os consumidores serão inspirados a recorrer apenas a fontes renováveis com emissões zero. Assim, toda a cadeia de valor começa a mudar. Pode ser acelerado com regulação? Sim, ajuda. Mas mesmo sem ela o processo vai começar.

Mas a contabilidade do carbono que estamos a fazer não é assunto arrumado. Há quem diga que estamos a subestimar as emissões?

Os protocolos de medição são bastante robustos. O protocolo dos gases com efeitos de estufa foi desenvolvido há 22 anos, com envolvimento do Instituto Mundial de Recursos, o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável também. Sãos os padrões para as medições. Ainda é difícil é medir as emissões ao nível da utilização dos consumidores e, mais importante, o uso de produtos que resultam da utilização dos terrenos – alimentos, madeira, fibras – não foram bem definidos no protocolo. Representam 23% das emissões totais do mundo. Nem todas as medições são corretas, mas está-se agora a construir o protocolo para o uso dos terrenos. Creio que estará resolvido dentro de um ano.

O FMI avançou uma proposta de preço de carbono ao nível de 75 dólares por tonelada de CO2. Como é que as empresas veem esta proposta?

A maioria das empresas – e, certamente, todas aquelas que estiveram connosco esta semana – concordariam com haver um preço para o carbono. Muitas destas empresas já usam preços internos do carbono. Não têm de pagar o imposto, mas nas decisões de investimento usam o imposto do carbono para tomarem melhores decisões. O melhor sistema de todos seria haver um preço global do carbono, porque só há uma atmosfera. Não interessa se é a Índia a emitir ou nós aqui. Vai tudo para a mesmo atmosfera, a mas a realidade presente da política internacional é que não é fácil ver todos os países a concordarem com isso. Alguns países, por razões que não são claras, não estão sequer certos de que o clima é importante. A Coligação para a Liderança dos Mecanismos de Fixação de Preço do Carbono, há semanas, publicou um estudo que põe frente a frente a fixação de preço do carbono e a competitividade. As pessoas estão sempre preocupadas com a possibilidade de, ao porem um preço no carbono e outro país não o fazer, estar-se a distorcer as condições de igualdade concorrencial. O estudo chega à conclusão que não há distorção da competitividade. Isso pode ajudar a fazer avançar a discussão. A política tornou-se um jogo muito complexo. Há muitas visões diferentes, com apoio um pouco mais de índole nacionalista do que global para as políticas. Não creio que a humanidade – e os negócios, sendo dos principais agentes da humanidade – pode continuar à espera que os governos acertem. São precisas quatro coisas para resolver as alterações climáticas. É precisa inovação, que é o que as empresas conseguem fazer – novas tecnologias, novas ideias, novos modos de fazer coisas. É preciso um bom sistema financeiro que a reconheça – financiar a inovação e ter modelos de valorização que saibam distinguir o que é bom do que é mau para o planeta. Depois, são precisos consumidores conscientes – se as pessoas não fizerem melhores escolhas, não importa quanto as empresas inovem. A quarta é a regulação, que pode ajudar, acelerar. Mas não é verdade que nada se passará sem regulação. Há muitas coisas que podemos fazer sem ela. E quanto mais o fazemos, mais podemos mostrar aos decisores que a tecnologia e financiamento funcionam. E mais fácil será para eles introduzir a regulação certa. Quanto mais as empresas fazem lobby para que nada mude, mais tempo demorará até que os decisores políticos façam a mudança. Então, já estaremos mortos.

Já seria uma ajuda as empresas não fazerem nada, não fazerem lobby para manterem as coisas tal como estão?

As empresas que se comprometeram como objetivos de emissões líquidas zero têm de dar conta do trabalho dos seus aparelhos de lobby. É fácil chegar a uma reunião sobre sustentabilidade e dizer ‘vamos ser emissões zero’, mas se o gabinete de comunicação ou o advogado ainda estão a combater mudanças na regulação não se está a ser honesto. Esta é a mensagem que quero passar: o tempo para jogos e para a desonestidade acabou.

O que as organizações ambientalistas nos dizem é que a certo ponto tem que se aceitar que se vai perder riqueza…

Mas não é uma ideia muito popular. É uma conversa interessante, que vale a pena ter, mas a verdadeira questão é a de saber se isso vai mobilizar as pessoas. Ou é apenas uma discussão intelectual que é agradável ter a uma sexta-feira à noite, mas que pouco muda. O problema fundamental no mundo é que temos teorias económicas baseadas no crescimento. A ciência económica não tem qualquer teoria para um mundo em declínio. Concordo que o excesso de consumo deve parar, temos de ter um consumo mais inteligente, não apenas por causa do clima mas também por causa da exaustão dos recursos e da poluição, dos desperdícios de plástico. Mas não temos qualquer teria que nos diga o que acontece à economia se tudo encolher. Globalmente, este declínio não é uma questão imediata. Sim, a Europa ocidental e os EUA têm de ser mais inteligentes a consumir. Isso significa que as empresas têm de inovar e ter produtos melhores, que durem mais tempo. Podemos fazer muitas coisas na inovação sem alterar a qualidade de vida e sem vender menos aos consumidores.

Vendendo coisas diferentes. Do ponto de vista económico, podemos entreter-nos com o período de adaptação?

É algo que vai demorar algum tempo, não vai ser a conversa do próximo ano, mas temos de pensar no que significa o crescimento. Hoje, significa produto interno bruto de um país, lucros nas empresas e rendimento para as pessoas. Medimos o crescimento apenas com números financeiros. Não medimos o crescimento em termos dos danos ambientais quando calculamos esses resultados, também não o medimos em termos de igualdade ou desigualdade gerada com esses números. Temos de começar a integrar o crescimento financeiro, ambiental e social num número de PIB – chamar-lhe-emos outra coisa – para que possamos continuar a crescer. Talvez menos do ponto de vista financeiro, mas muito mais em reduzir os danos ambientais e em ter melhor qualidade de vida. Se redefinirmos o crescimento vamos poder continuar a crescer durante um período longo. Não porque estamos simplesmente mais ricos, mas porque temos pessoas mais felizes ou menos catástrofes naturais.

É muito difícil vender isto às pessoas. Temos as reações das pessoas que querem garantir que têm emprego.

Aquilo que as pessoas têm de perceber, e ainda não o estão a fazer, é que estamos a atravessar uma emergência planetária. Nada do que eu disse vai ser fácil, mas se não o fizermos vai correr tudo mal. O planeta está prestes a ceder. A ciência é clara. Se continuarmos a emitir o mesmo vamos ultrapassar o aquecimento de 1,5ºC e vão começar a despontar pontos de rutura ambientais e serão muito imprevisíveis os danos que a natureza nos irá causar. Ninguém quer isso. Não sei se acontece em Portugal, mas em toda a Europa temos greves de estudantes pelo clima. Há o movimento Extinction Rebellion. As pessoas começam a sentir que algo de muito errado se passa. As empresas não estão a avançar rápido o suficiente e precisamos de uma mudança radical. Significa que é fácil mudar? De modo algum. Mas não mudar é uma perspetiva muito pior. Os negócios têm um papel chave a desempenhar.

Veja aqui a entrevista original
2019-10-23T10:43:22+00:00
This website uses cookies to improve your experience. We'll assume you're ok with this, but you can opt-out if you wish. Accept