O retorno sobre o investimento na biodiversidade

O retorno sobre o investimento na biodiversidade

Data da publicação: Mai 2019

É urgente divulgar o conhecimento sobre a relação entre as atividades económicas, as práticas produtivas, o bem-estar humano e o impacto nos ecossistemas. É obrigatório incorporar a biodiversidade nas estratégias e negócios das empresas; aquelas que mais cedo o fizerem assumirão um papel de liderança, tornar-se-ão numa referência para as restantes e beneficiarão de uma vantagem competitiva no acesso a mercados, recursos e financiamento.

O mais completo e atual relatório sobre a biodiversidade global, divulgado a 6 de maio pela Plataforma Intergovernamental Científica e Política para a Biodiversidade e os Ecossistemas (IPBES, na sigla inglesa), criada no âmbito das Nações Unidas, juntou a investigação e as opiniões de 400 cientistas e chegou à conclusão de que “a destruição da biodiversidade e dos ecossistemas atingiu níveis que ameaçam o bem-estar da humanidade, pelo menos tanto quanto as alterações climáticas induzidas pelo ser humano”, sendo necessária “uma mudança revolucionária para impedir uma crise de extinção global sem precedentes”.

O relatório espelha o falhanço completo das metas estabelecidas pela Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD, na sigla inglesa), com progressos significativos em componentes de apenas quatro das 20 Metas de Biodiversidade de Aichi, sendo provável o fracasso da maioria até o prazo de 2020. Mais: estas tendências negativas na biodiversidade e nos ecossistemas afetarão de forma significativa o progresso de 80% das metas estabelecidas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), relacionadas com pobreza, fome, saúde, água, cidades, clima, vida marinha e vida terrestre (ODS 1, 2, 3, 6, 11, 13, 14 e 15).

Além de uma questão ambiental vital, a perda de biodiversidade é, agora, um problema de desenvolvimento económico e social, uma questão de segurança e uma preocupação moral. Esta consciencialização evidencia não só os riscos para as empresas mas também as oportunidades, com economistas a calcular que o aumento da receita e dos lucros resultantes da conservação da biodiversidade poderia gerar entre 25 e 50 mil milhões de dólares por ano.

A importância da biodiversidade e os últimos números

A biodiversidade é a variabilidade entre os organismos vivos de todas as origens incluindo diversidade dentro das espécies, entre espécies e ecossistemas. Os ecossistemas fornecem soluções e oportunidades baseadas na natureza para muitos dos desafios ambientais, económicos e sociais mais críticos que enfrentamos, incluindo as crises globais ao nível das alterações climáticas, da saúde e bem-estar humanos, da água, da fome e da segurança.

Economicamente, dependemos de bens e produtos obtidos a partir dos ecossistemas, como alimentos, água potável, madeira, fibras e recursos genéticos; dependemos dos benefícios da regulação e controlo que os ecossistemas exercem sobre os processos naturais, como o clima, as doenças, a erosão, os fluxos de água, a polinização, e a proteção contra riscos naturais; dependemos do ciclo dos nutrientes e da produção primária para alimentar os processos de produção e tratar e dissipar resíduos; dependemos até dos benefícios não materiais para atividades turísticas, recreativas, espirituais e estéticas vinculadas à saúde dos ecossistemas. Assim, a biodiversidade é fundamental para a sobrevivência dos negócios a longo prazo e a sua perda significa uma maior exposição e vulnerabilidade aos impactos externos sobre os ecossistemas e representa uma ameaça à segurança dos abastecimentos; afeta, portanto, a qualidade da vida humana e constitui um componente essencial da sustentabilidade de toda a atividade económica.

Vivemos uma perda de diversidade sem precedentes e provocada pelos humanos. Atualmente, e de acordo com o último relatório da IPBES, cerca de um milhão de todas as espécies do planeta enfrentam a extinção, muitas delas dentro de poucas décadas; três quartos da vida terrestre e cerca de 66% da vida marinha foi significativamente alterada pelo impacto humano; cerca de um terço da terra e de 75% da água doce é agora dedicado à produção agrícola e pecuária; à exceção de uma parte muito pequena (7%), todos os grandes stocks de pesca do mundo estão em declínio, devido à sua sobre-exploração; as áreas urbanas duplicaram em dimensão nos últimos 15 anos; foram perdidos 2,9 milhões de hectares de floresta desde 1990, numa área correspondente à dimensão da Alemanha; a poluição pelo plástico aumentou 10 vezes desde 1980 e foram identificadas mais de 400 ‘zonas mortas’ nos oceanos com uma área combinada de 245 mil quilómetros quadrados, maior que o Reino Unido.

Ameaças, oportunidades e ações concretas

Todos os negócios são ameaçados por estas estatísticas e as consequências podem levar a um aumento de custos ou à interrupção das cadeias de valor. Já em 2010, o relatório TEEB – The Economics of Ecosystems and Biodiversity evidenciou as consequências económico-financeiras da degradação da biodiversidade e dos ecossistemas: através, somente, da desflorestação, o mundo perde serviços dos ecossistemas avaliados entre 2 e 5 mil milhões de dólares por ano, as águas interiores (rios e lagos) fornecem produtos e serviços com valores estimados entre 1 779 e 13 487 dólares por hectare, por ano e a contribuição dos insetos polinizadores para a produtividade agrícola representa uma poupança de cerca de 190 mil milhões de dólares anuais.

Segundo o WBCSD, os desafios surgem ao nível das licenças para operar (com as crescentes exigências legais impostas pelos governos com o objetivo de proteger a biodiversidade e combater as alterações climáticas), das multas, dos sinistros por danos ambientais a terceiros e futuras responsabilidades ambientais, das ruturas das cadeias de abastecimento, e da imagem das marcas – que pode conduzir ao boicote por parte dos consumidores, a anti campanhas promovidas por ONG ambientalistas e a baixo desempenho e valor nos mercados financeiros.

Se para algumas indústrias as ameaças são claras e tangíveis – agropecuária e pescas, por exemplo – para outras podem, erradamente, parecer relativas. Mas vejamos a relação custo-benefício entre a biodiversidade e alguns setores de atividade:

  • Na indústria das florestas, da madeira e do papel, um estudo de 2016 concluiu que a biodiversidade nas culturas tem benefícios financeiros acima dos 200 mil milhões de euros anuais.
  • A indústria farmacêutica depende da biodiversidade e da saúde dos ecossistemas para fabricar e criar medicamentos – um estudo norte-americano estima que o valor farmacêutico da biodiversidade marinha para a descoberta de medicamentos contra o cancro pode variar entre 563 mil milhões e 5,7 biliões de dólares.
  • O ecoturismo, baseado em viagens ambientalmente conscientes e centradas na natureza e na vida selvagem, cresce ao ritmo de 6% ao ano e, em 2009, já gerava 77 mil milhões de euros de lucros anuais em todo o mundo.
  • As companhias de seguros dependem das áreas húmidas costeiras para minimizar o impacto de grandes tempestades – um estudo publicado pelo World Bank Group concluiu que a preservação de um hectare de mangais nas Filipinas gera mais de 3 200 dólares de poupança ao nível da redução das cheias a cada ano.

Desta forma ficam claras, também, as oportunidades para as empresas que se chegarem à frente pela proteção da biodiversidade: primeiro, poderão beneficiar ao nível da eficiência no uso de recursos e consequente redução de custos, uma vez que as empresas dependem de ecossistemas naturais para crescer e inovar; depois, passarão a atrair a atenção de investidores socialmente responsáveis; e ainda garantem o fortalecimento da cadeia de valor, um melhor relacionamento com todos os stakeholders, uma imagem mais positiva junto dos consumidores éticos, e um caminho claro rumo ao crescimento sustentável.

Para as empresas – sobretudo as PME – os custos de endereçar esforços à proteção da biodiversidade podem ser altos, podem ser uma desvantagem competitiva a curto-prazo e pode ser difícil avaliar o seu valor a longo prazo e integrá-los nas decisões de investimento. Mas mais perigosas serão as consequências de continuarem a ignorar o problema e a empurrar a responsabilidade para outros stakeholders com quem devem trabalhar em conjunto numa solução.

Neste âmbito, a CBD definiu três objetivos que devem fazer parte do ADN de todas as empresas responsáveis: a conservação da biodiversidade para capitalizar o valor ambiental, o uso sustentável dos recursos naturais para capitalizar o valor económico e a distribuição equitativa dos benefícios resultantes do uso da biodiversidade para capitalizar o valor social.

Para uma participação ativa nesta missão urgente, as empresas podem reconhecer a biodiversidade como um tema relevante para a sua estratégia e as suas atividades, identificar um ‘campeão’ de biodiversidade ao nível sénior da hierarquia, realizar avaliações sobre o impacto da empresa na biodiversidade, desenvolver uma estratégia para a biodiversidade, e desenhar e implementar um plano de ações para integrar as preocupações com a biodiversidade nas tomadas de decisão interna. Deixamos exemplos de alguns estudos de caso internacionais e de projetos de referência de empresas membros do BCSD Portugal:

Neste âmbito, o BCSD Portugal tem um grupo de trabalho dedicado à Bioeconomia, que tem também como objetivo sensibilizar para a importância da gestão sustentável do Capital Natural.

2019-06-04T11:04:51+00:00
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